Histórias de eventualidades, improbabilidades, bicharadas, noitadas e coisas do arco da velha que de alguma forma me acabam sempre por acontecer. Crónicas diárias com a matilha, muita bicharada à mistura, muita música e sempre com um humor caústico como muita gente gosta de o caracterizar.

25/02/2008

A saída



Cá vai então o relato da segunda visita de campo Amphibio.Org.
Tudo começou numa chuvosa manhã de Inverno, quando nos encontrámos na Videla, que era o ponto de mais fácil referência para quem sai da A1, já que se pedisse aos anfibiófilos que se juntassem a mim no local de prospecção o mais provável seria que se perdessem nas intermináveis estradas labirínticas da Serra de Aire e Candeeiros. Assim carro a carro lá se ia formando o nosso pequeno mas rico grupo de garimpeiros do ouro caudata.



Um café depois e lá fomos nós a caminho daquela que seria a nossa residência por dois (húmidos) dias de herpetofilia excelentes. Depois de largarmos as bagagens de camaroeiro em riste lá fomos nós enfiar o nariz na nossa primeira poça. Aí encontrámos o nosso primeiro pygmaeus, a espécie que sem dúvida iria ser o rei da festa com a sua crista imponente e cores vivas. Depois de uma explicação breve e da sexagem do bicho, que no caso é extremamente fácil como quem conhece a espécie pygmaeus sabe, a segunda apanha foi uma larva de salamandra.



Estas sim eram omnipresentes em qualquer buraquito que tivesse água. Depois a apanha seguinte foi uma fêmea de Pleurodeles waltl, grande, gorda e velha. Já era o segundo ano que a encontrava naquele lugar, então foi como reencontrar uma velha amiga. Os rapazes e raparigas já que este era um grupo bastante heterogéneo, algo de estranhar no mundo da herpetofilia, quase tiveram uma síncope quando viram aquela beldade. Um animal lindo e enorme, com umas cores fenomenais e ainda com o tecido cicatrizado da úlcera com que a encontrei o ano passado. Todos adoraram a visita que aquela velha amiga nos fez.





Nesta poça estava também uma Natrix maura morta infelizmente com a barriga inchada, o que fazia crer que tinha tido mais olhos que barriga e morreu com o que quer que tenha comido.
A poça seguinta trouxe-nos uma outra rapariga, uma bela Pygmaeus fêmea com uns tons alaranjados lindíssimos e um verde vivo que proporcionou várias belas oportunidades fotográficas.



Agora vem o alivio cómico da história, a chuvinha foi uma constante ao longo de todo o passeio, portanto as pedras estavam mais que escorregadias. Assim enquanto andava de camaroeiro em riste o pessoal divertia-se a apontar a máquina fotográfica aqui ao guia a ver quando é que ele caía para dentro da pia. Mas é que chegavam ao cúmulo de com sorrisos escancarados dizerem entre si "É agora! Preparem as câmaras" e "À terceira é vez" e "É agora, é agora!" mas para sua infelicidade não foi. Se bem que mandei um tralho quando me puz a correr para atender o telemóvel. Mas aí não havia camâras preparadas, ou melhor haviam, mas estavam todas a apontar para o sítio errado. "Magoaste-te?" perguntaram, mas não, a única coisa que tinha saído ferido tinha sido o orgulho. Outras quedas houve, alguém que caiu de costas, outra que fez uma aterragem de nalgas ... mas tudo serviu para nos rirmos e passar um bom bocado. Mas voltando às poças.



A poça seguinte trazia um grupo de machos empoleirados nos bosques subaquáticos de Chara sp. a mostrar orgulhosamente a sua cauda e crista a qualquer fêmea que por lá passasse. Cada um era mais belo que o outro e deixava-nos de olhos em bico. Antes de almoço fomos ainda resgatar duas salamandras que se encontravam presas numa cisterna. Duas fêmeas que caíram lá para dentro para dar à luz e que não conseguíam sair. Claro que sendo nós os bons samaritanos, lá fomos salvar os animais de morte à fome não sem antes despejarmos as nossas câmeras fotográficas. Nós, é como quem diz, porque o serviço de camaroeiro não me deixava qualquer tempo para tirar fotos. Mas pronto, já estou habituado.





De seguida foi o almoço, sandochas para o pessoal e muita partilha de comidinha boa trazida de casa sempre acompanhada da nossa já fiel e constante chuvinha.
O passo seguinte foi a visita da casa aqui do mestre anfíbio (como alguém me tratou durante o percurso) se bem que com a chuva que caía já éramos todos um pouco anfíbios. Lá deu para ver alguma da minha bicharada e a confusão que reina suprema no meu pequeno reduto.
A próxima localidade a visitar foi a Fornêa, afinal nada melhor que uma caminhada de 6 quilómetros para ajudar a digestão.



Lá encontramos várias larvas de salamandra que já se tornariam inevitáveis durante todo o nosso percurso. Foi aqui que se deu o nosso primeiro precalço. A Búzio ficou sem óculos pelo que teve de abandonar a expedição com a respectiva família. Nós continuamos a nossa escalada. Algo que já tinha reparado é que o cansaço aproxima as pessoas e a escalada não foi nada meiga. Mas a vista lá de cima com o som da água a correr provou valer muito a pena.
Se seguida fomos prospeccionar o polje de Minde aqui viríamos a encontrar larvas de Pleurodeles e algo que nunca tinha encontrado antes, artêmia de água doce (Chirocephalus diaphanus) animais enormes com o seu saquito de ovos em plena época de reprodução algo que o grupo mesmo um pouco desfalcado adorou encontrar.



A esta hora já escurecia e o cansaço instalava-se. A chuva não dava tréguas pelo que o grupo decidiu dar o primeiro dia de expedição encerrado e voltar ao acantonamento, onde nos esperava água quentinha, roupa seca e o melhor uma lareira acessa que nos fez as delícias durante toda a noite, noite essa que se arrastou até a horas impróprias acompanhada de boa pizza, muita conversa, muitas risadas e muita boa companhia.
O segundo dia começou lentinho, com o gradual despertar dos membros da nossa expedição. Nesse dia viriam-se a juntar ao nosso grupo mais dois membros., que depois de algumas atribulações chegaram a bom porto. Este dia começou com a investigação da poças iniciais onde os nossos fiáveis pygmaeus se encontravam à nossa espera. Seguiu-se de uma bela almoçarada num restaurante da zona. Depois do farto almoço, seguiu-se a procura de Waltl, contudo nesta altura a chuva já tinha piorado e vinha acompanhada de trovoada, pelo que a única coisa encontrado foram ovos de waltl e uma bela molha. O encerramento da expedição deu-se em minha casa, com um belo de um ucal quentinho para todos para animar a malta e preparar a viagem de volta que para muitos iria ser bem longa.



Tenho a impressão que todos saíram satisfeitos. Desde já o meu obrigado a todos os que participaram. Sem vocês estes dois dias fantásticos não teriam sido possíveis. É sempre bom falarmos com pessoas que têm a mesma linguagem e que nutrem esta grande paixão pelo reino animal.
A todos um bem-haja!



Fotos: AlexMC
Todos os animais foram libertados onde foram encontrados.

2 comentários:

Adry disse...

Ai credo Samuel... e' cum cada bichinho!!! So' acho piada ao sapiTo!!! =) E' k dantes kd a mata enchia... apareciam ca' mts pla serra...e eu andava sempre a apanh'a-los!!! Cheguei a encher um aquário deles... mas mais pekenitos... rãs, certamente!!!!

Ana banana disse...

não há palavras que descrevam a sensação que se tem numa saída destas. depois de dois dias a caminhar (que exagero, foram só umas horas!), de andarmos á procura da bicharada, de apanharmos com chuva na cara e ter lama nos pés... depois disso tudo abancámos. a malta toda junta, enlameados até dizer chega, molhados até aos ossos...mas com um brilhozinho no olhar, o ar de quem queria voltar os dois dias atrás e repetir a experiencia!!

fim de semana para recordar!:D