Histórias de eventualidades, improbabilidades, bicharadas, noitadas e coisas do arco da velha que de alguma forma me acabam sempre por acontecer. Crónicas diárias com a matilha, muita bicharada à mistura, muita música e sempre com um humor caústico como muita gente gosta de o caracterizar.

29/03/2008

A garfa


Estava eu sentado na varanda, a atazanar a vida aos meus cães, depois de uma noite curtinha devido à farra, quando me apercebo do zumbido. Ainda pensei se seria alguma planta em flor e que as abelhas andavam na sua azáfama do mel, mas não, não havia planta nenhuma que justificasse tal zumbido. Depois lembrei-me, deve ser o meu vizinho que anda de volta das colmeias, o que até nem é incomum, andarem as abelhas num corropio porque lhe andam a assaltar o mel. Continuo a saborear o meu cigarro e a atazanar os cães quando o número de abelhas aumenta, neste momento já eram centenas no ar e lembrei-me, uma garfa, é uma garfa!
Nesta época do ano, as abelhas começam a criar novas rainhas que por sua vez abandonam a colmeia levando consigo parte da mão-de-obra para colonizar novos territórios (algo que muitos apicultores não lhes agrada porque enfraquece a colmeia mãe). Fiquei de olho nas abelhas, sabendo que iam pousar por ali perto. Assim aconteceu e aterraram todas num cacho bem pertinho de onde moro. Vou espreitar e lá estava o cacho de abelhas penduradas num galho. Para quem não sabe, uma garfa é o nome dado a este enxame secundário que abandona a colmeia principal.
Agarro na máquina fotográfica e aproveito para tirar umas fotos ao meu achado que nesta altura já tinha pousado e se preparava para pernoitar. Ligo para o meu amigo que é apicultor e pergunto se ele quer aproveitar a garfa, ele diz que sim e pouco tempo depois lá estava com o seu cortiço (colmeia artesanal feita com cortiça). Agarramos num punhado de abelhas e empurramo-las lá para dentro, algum tempo depois já só tinham ficado algumas da parte de fora e já estavam as abelhas todas contentes na sua nova casa temporária.
E para quem ache que é preciso ter tomates de ferro ou uma tendência masoquista para agarrar um punhado de abelhas, fiquem a saber que as abelhas enxameadas (que andam à procura de nova casa) são extremamente dóceis, vêm cheinhas de mel. Não que não seja possível apanhar uma ferroada (que acabou por acontecer) mas só aconteceu porque a apertei um pouquito de mais e ela se sentiu assustada. De resto andavam calminhas a proteger a sua rainha e agora estão na casa nova.
Já há algum tempo que não apanhava uma garfa, e os meus dias de apicultor já lá vão (em que ajudava o meu vizinho). Por isso soube-me mesmo bem encontrar esta pequena maravilha.



2 comentários:

Profundezas disse...

O ano passado cruzei-me com uma garfa, ou melhor, a garfa cruzou-se comigo, em pleno Planalto de Santo António... confesso que não foi particularmente agradável ver tantas abelhas a voar na minha direcção e eu de vermelho e amarelo, sem nenhuma protecção à volta da cara... Mas não deixa de ser um fenómeno deslumbrante de se observar!

S. C. disse...

As abelhas Não conseguem ver o vermelho. No entanto conseguem ver o espectro ultra-violeta. O teu vermelho elas vêem como sendo preto. Isso sim, já as assusta mais. De qualquer forma as abelhas quando enxameam são muito dóceis.
O engraçado é que da conversa que tive com os apicultores aqui da zona é as rotas de migração. Nesta altura do ano migram num sentido norte-sul e mais lá para a frente num sentido sul-norte. Isto aqui no Planalto de Santo António.